Lição de arquitetura

O texto que segue abaixo foi retirado do livro “Maquetes de papel” de Paulo Mendes da Rocha.
“O assunto que vamos discutir aqui é muito interessante. A questão fundamental que navega entre nós arquitetos é imaginar as coisas que ainda não existem. (...)
Para enfrentar essa questão, devemos começar invocando aquilo que a experiência humana acumulou em forma de conhecimento, desde as origens de nossa existência até hoje. Um arquiteto deve pensar de cara em história da arquitetura, se debruçar sobre os testemunhos que temos – alguns muito emocionantes. Necessariamente temos que ir aos livros, a esses testemunhos, e saber o que é estudar para nos convencer do que estamos fazendo. Vem à cabeça a imagem de Stonehenge – aquelas pedras apoiadas num frágil equilíbrio milenar. Estou dizendo tudo isso pelo seguinte: se você vai fazer um projeto, antes de mais nada deve ser capaz de invocar a memória sobre um saber, ainda que não tenha consciência de que sabe.
A cidade contemporânea tem sido descrita como mais ou menos infeliz: congestionamento de automóveis, poluição etc. É verdade ou não? Estamos todos no mesmo barco para repensar tudo isso. Ou seja: temos que convocar o que se chama de visão crítica sobre a situação. Não aceitar isso ou aquilo, mas perguntar ‘o que é que você esta falando?’.
Por exemplo, o fato de que não há casas para todos não é mais só uma questão de arquitetura. (...) Então surge a questão primordial da arquitetura: a fabricação, a construção e a edificação da cidade. E, agora mais do que nunca, a consciência sobre a ecologia, a cidade como transformação da natureza, uma nova geografia! É exagero? Vamos lembrar de situações em que isso é mais evidente, a transformação da natureza, da paisagem, da própria geografia: a Holanda ou Santos, em São Paulo: aquilo era um lamaçal, não é? Para resolver essa situação, o engenheiro Saturnino de Brito, um grande especialista em saneamento, soube como estabelecer canais de drenagem das águas, muralhas de cais, aterros, consolidando assim o território para fazer uma cidade onde a princípio seria impossível. (...)
É tudo projeto! Essa visão da disposição espacial e da instalação das populações, das infraestruturas, das casas, é um trabalho muito engenhoso, fruto de uma determinada experiência humana.
(...)
Portanto, a cidade é o espaço ideal do habitat humano. Ela precisa ser projetada. As coisas não podem acontecer como um acaso histórico, com desvios de interesses particulares; temos que acomodar as populações no seu melhor arranjo dentro das cidades, e não só vender terrenos, como querem os especuladores imobiliários; isso gera um desastre. A cidade é para todos. São os impostos que pagam o asfalto, o esgoto, o transporte coletivo e não individual; pois, como sabemos, o automóvel entope as ruas, não se anda, e ainda polui a atmosfera. (...)
Devemos entender a dimensão política da nossa profissão, quer dizer, influir de modo justo nas prefeituras e assembléias, para que se mude a mentalidade da ocupação desse território, para que se adotem modelos mais novos, e pouco a pouco transformar esses lugares em algo melhor, para que se demonstre a grande virtude que é viver nesta ou naquela cidade.
(...) a arquitetura é uma forma singular de conhecimento, é algo complexo de definir! Porque você convoca história, ternura, memória, realização, e decide: vou fazer, então!”

G4