Serra do Navio: Patrimônio Ameaçado!


 


Quem disse que a Arquitetura Moderna é dissociada do lugar em que se desenvolve que não se preocupa com o clima ou relevo ou mesmo a cultura?

Quem disse que as teorias não podem ser adaptadas as diversas realidades dos mais diferentes locais de agrupamentos humanos, ou que modificar seu ponto de vista é perder sua identidade?

E ainda, quem disse que o cliente manda e o arquiteto obedece? Grave ou trágico ainda se pensa e até mesmo se tenta ensinar arquitetura dessa maneira.

Afinal uma teoria que não busque aplicação prática adaptável aos condicionantes sócio-culturais, econômicos e físicos (clima, relevo e luz) nasce morta. E se o cliente soubesse tudo que é bom em termos arquitetônicos (que busca a qualidade de vida a partir do bem estar proporcionado pelas três modalidades de conforto estudadas na arquitetura) não seria necessária a presença do arquiteto, somente seriam necessários desenhistas técnicos.

A Arquitetura tida como Moderna, que foi um movimento internacional, não buscou homogeneização das formas nem tão pouco da inspiração, mas sim uma equiparação teórica entre os arquitetos, que contemporâneos possuíam demandas equivalentes em seus respectivos territórios.

E respondendo a estas questões se insere a cidade de Serra do Navio, no estado do Amapá, em sua região serrana central. Prova irrefutável de criatividade em face de exigências rígidas de um programa de necessidades voltado para uma hierarquização da cidade que refletisse a própria hierarquização da empresa que a encomendou. Para efeito o período era o governo de Getulio Vargas, no contexto da Segunda Guerra Mundial e criação dos Territórios Federais, no qual o Amapá fazia parte, fins da década de 1940.

Uma cidade americanizada, que de norte americana nada tem! Ou será que as comunidades ribeirinhas, estudadas pelo arquiteto possuem cercas ou não estão adaptadas ao clima da Região Norte. É amazônida sim! Mais é amapaense, feita por um paulista. Talvez os primeiros exemplares de uma arquitetura do Amapá! Nascida aqui.

Embora houvesse uma grande preocupação da setorização e controle social desta vila operária, o arquiteto responsável, Oswaldo Bratke, não deixou de antever como se daria a reprodução social dos habitantes. Buscando o máximo de aproveitamento das características físicas do local, garantido o máximo de conforto.

Mesmo com todo seu valor histórico, cultural e arquitetônico, mesmo sendo Serra do Navio, hoje, único município com centro histórico quase intacto, este exemplar da boa, verdadeiramente, arquitetura, é praticamente esquecido pela gestão municipal quando deveria estar em primeiro plano para o desenvolvimento do Município, que mesmo depois de mais de 50 anos de exploração por parte de mineradoras, ainda se agarra a este tipo de ativação econômica.

E permite que se deteriore, tanto por pura ingerência administrativa quanto por simples desconhecimento da importância dos exemplares arquitetônicos e plano urbanístico de Serra do Navio.

Histórias e estórias não faltam a este belo município, o que falta é serem contadas, nas escolas, para que os “pequenos de lá” saibam o valor de sua terra. Historias estas que bem poderiam estar, também, em museus, livros, mas nem isso ao menos pensa em ser feito, não pela gestão municipal, e a cidade perde. G4

Por Wandemberg Almeida Gomes, Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo da UNIFAP.