Urbanidades: espaço, paisagens, e perplexidades - I


             Paisagem é espaço formado pela reunião de fragmentos, partes distintas e excludentes entre si, aquilo que se vê e o que é real, o conjunto total, e os fragmentos constituintes reunidos, que apesar de apresentarem certo grau de interdependência, na verdade uma falsa unidade criada de modo a, deliberadamente, escamotear a exclusão das partes que se relacionam, se um faz o outro não atua.
            E esta paisagem que é fruto de diversos tempos e espaços em palimpsesto possui também uma verdade não analisável em seu escopo por completo, por estar sob grossa camada de ideologias, em seu sentido mais nefasto, o de manipulação de massas, de maneira a setorizar, reunir e distanciar os homens de acordo com sua classe social ou campo cultural, entre outros, ao qual o individuo está inserido.
            Alem de criar estereótipos, antes mesmos deles existirem ou de um possível mercado para uma mercadoria ainda nem produzida. Espaços-mercadorias do cotidiano, “fetiche” que se veste, se come, que se reproduz socialmente, que se apreende visualmente, mas não se vê desnudo, o próprio espaço construído. 
            Feitos tais comentários é válido resultar como isto se manifesta de maneira clara e objetiva. A produção da paisagem da cidade é exemplo vivo, tanto fragmentação social quanto da “fetichezação” do espaço-mecadoria. Gerando contrastes tão acentuados que comumente são chamados de cidades dentro das cidades, as marginalizações dos espaços onde se segregam os indivíduos, de maneiras sutis ou de forma violenta, seja pela simples negação ao planejamento da paisagem urbana, seja pela especulação imobiliária.
            Afinal, a produção da paisagem que é parte natural – relevos, sobretudo, matas nativas, bacias hidrográficas, etc. – e parte fruto da manifestação da sociedade – construções em geral, que vão desde as residências mais simples aos mega empreendimentos como arranha-céus. E desta maneira sendo o próprio comportamento social petrificado marcando o espaço no tempo e a cada tempo modificando os usos e a percepção do espaço pela sociedade que se apropria. Assim registrando no presente diversos acontecimentos passados, sendo então a paisagem um elemento de tempo presente. Modificada a cada ativação do espaço, ora iluminado ora opaco. Ora central, ora marginal. Resultante de uma valsa que ainda está longe de cessar.
Por Wandemberg Almeida Gomes, Acadêmicode Arquitetura e Urbanismo da Unifap.