Lição de Arquitetura n° 2

TODA EXPERIENCIA CUSTA MUITO SACRIFICIO MORAL E FINACEIRO” Gregori Warchavchik, 1928.

             Beleza é um conceito inerente ao tempo em que se vive. Logo não se podem comparar os ideais de uma antiguidade clássica aos atuais, é uma questão de valores de um modo de vida de uma determinada sociedade em um período de tempo. De modo análogo podemos observar a arquitetura que é a manifestação física de uma cultura, afinal, a maior parte do tempo as reproduções sociais se dão em espaços construídos, mesmo que não tenha em seu fim o uso planejado inicialmente, ou mesmo que não tenha sido planejado.
            A arquitetura moderna buscava a superação com dos padrões de épocas tanto imediatamente anteriores a sua quanto as mais distantes que para estas ultimas serviram de “inspiração”, para muitos como copia. Responder as exigências de sua época, assim Gregori Warchavchik argumenta: “o arquiteto moderno deve estudar a arquitetura clássica para desenvolver seu sentimento estético e para que suas composições reflitam o sentimento do equilíbrio e medida, sentimentos próprios a natureza humana” (1).
            Do mesmo modo hoje, o estudante de arquitetura, e mesmo os arquitetos, devem fazer isto, pois, vive-se um tempo pouca idealização da forma, baixa linguagem de arquitetura, e teorização quase nula. Não se pode negar a historia, mas esta própria nos mostra que é necessário superá-la, avançando em termos técnicos, tecnológicos e estéticos, de modo que sejam atendidos três requisitos básicos da obra arquitetônica descritos por Warchavchik que são “atender aos fins da obra; adaptá-la ao clima e costumes do lugar; e observar do ponto de vista estético as possibilidades concedidas pelo material de que dispuser no momento e harmonizá-lo da melhor forma possível com as características da época” (2).
             O arquiteto, o bom arquiteto “não copiará coisa alguma [...], estudará os arredores imediatos e as exigências da vida particular dos futuros habitantes. Assim as construções terão caráter original, formar-se-á um estilo novo, próprio ao lugar, confortável e de absoluta beleza” (3), pois este, a procura de ser original, verdadeiramente, transformará “idéias novas em formas novas” (3), sem que se vulgarize o espírito criador sincero, com achismos de todos os tipos.
            Ainda hoje é uma das discussões mais acirradas nos círculos arquitetônicos sobre a universalidade da arquitetura. Muitas vezes tomada como dogmática, com paradigmas que não poderiam ser discutidos, calunia. Não se pode escolher um estilo e se alinhar a ele, isso é uma traição aos ideais do espírito criador, o que se buscou foi a qualidade, por uma expressão universal, não copias do centro para as periferias. Se buscou nestes princípios a adaptação desses “princípios universais, a cada região, a cada povo, a cada nacionalidade” (4) que darão tons e formas “impossíveis de serem previstas, mas que darão, sem duvida, a unidade do estilo do século XX, em sua essência” (4). E por que não do século XXI.
            É fato que não negar o passado é uma maneira de aprender, visualizando os prós e contras, evitando as copias mesmo das obras atuais, nem tudo que é ventilado pode ser construído indiscrimidamente, adapte a sua realidade, utilize novos materiais de acordo com suas possibilidades e disponibilidade do lugar onde irá ser produzida a obra, desse modo os arquitetos poderão dar “muito ar, muita luz, muita higiene, um pouco de simplicidade elegante e muito bom gosto, ao habitante de cada casa” (4).



Notas
1 – G. Warchavchik, Arquitetura do século XX e outros escritos. Texto: Acerca da Arquitetura Moderna. Cosacnaify. Originalmente publicada com o titulo “Futurismo?”, junho de 1925.
2 – G. Warchavchik, Arquitetura do século XX e outros escritos. Texto: Arquitetura Brasileira [entrevista]. Cosacnaify. Originalmente publicada em Terra roxa e outras terras.Setembro de 1926.
3 – G. Warchavchik, Arquitetura do século XX e outros escritos. Texto: Decadência e Renascimento da Arquitetura. Cosacnaify. Originalmente publicada em Correio Paulistano. Agosto de 1928.
4 – G. Warchavchik, Arquitetura do século XX e outros escritos. Texto: Arquitetura do século XX, parte I. Cosacnaify. Originalmente publicada em Correio Paulistano. Agosto de 1928.

Por Wandemberg Almeida Gomes, Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo da UNIFAP.